terça-feira, maio 16, 2006

O primeiro violoncelista da orquestra!

De súbito, a orquestra calou-se, apenas se ouve o som de um violoncelo, chama-se a isto um solo, um modesto solo que não chegará a durar nem dois minutos, é como se das forças que o xamã havia invocado se tivesse erguido uma voz, falando porventura em nome de todos aqueles que agora estão silenciosos, o próprio maestro está imóvel, olha aquele músico que deixou aberto numa cadeira o caderno com a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach, a suite que ele nunca tocará neste teatro, porque é apenas um violoncelista de orquestra, ainda que principal do seu naipe, não um daqueles famosos concertistas que percorrem o mundo inteiro tocando e dando entrevistas, recebendo flores, aplausos, homenagens e condecorações, muita sorte tem por uma vez ou outra lhe saírem uns quantos compassos para tocar a solo, algum compositor generoso que se lembrou daquele lado da orquestra onde poucas cousas costumam passar-se fora da rotina.


Idem

Salvo se.

(...) há sempre a possibilidade de que (...) um suave acorde de violoncelo, um ingénuo trilo de piano, ou apenas que a visão de um caderno de música aberto sobre uma cadeira te faça lembrar aquilo em que te recusas a pensar, que não havias vivido e que, faças o que fizeres, não poderás viver nunca, salvo se.


Idem

A morte, o Violoncelista e o cão.

A morte afagou as cordas do violoncelo, passou suavemente as pontas dos dedos pelas teclas do piano, mas só ela podia ter distinguido o som dos instrumentos (...)

O homem moveu-se, talvez sonhasse, talvez continuasse a tocar as três peças de Schumann e lhe tivesse saído uma nota falsa, um violoncelo não é como um piano, o piano tem as notas sempre nos mesmos sítios, debaixo de cada tecla, ao passo que o violoncelo as dispersa a todo o comprido das cordas, é preciso ir lá buscá-las (...)

Muito mais tarde, o cão levantou-se do tapete e subiu para o sofá. Pela primeira vez na sua vida a morte soube o que era ter um cão no regaço.


José... Saramago

terça-feira, abril 25, 2006

Preâmbulo (FFF)

Preâmbulo ao post sobre o 25 de Abril que teve de ser interrompido por um ensaio que vai começar dentro de 10 mins. (sim porque nesta terra 25 de Abril é dia de comemorar... a maravilha que é a Música... através de aulas, ensaios... enfim, o costume!

Preâmbulo, portanto:

Flauta, Fagote e... Fado?
NÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!
Flauta, Fagote e... FUTEBOL!!!... outra vez...
Mas desta vez sou eu a jogar... peladinhas... com os amigos...
Muito bom!

25 de Abril (sempre... mesmo que seja a 11 de Maio)

25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!!

Faço parte de uma geração para quem esta palavra de ordem é, sobretudo, algo que se ouve gritar uma vez por ano, em manifestações menos numerosas a cada ano que passa, por ocasião das comemorações do aniversário da nossa revolução.
Faço parte de uma geração para quem o significado desta palavra de ordem - como, de resto, tudo o que diz respeito à revolução e seus antecedentes e consequentes mais próximos - é, em grande parte, um exercício de imaginação e abstracção, cabendo a cada indivíduo desta geração (chamemos-lhe "pós-Abril") estar mais ou menos informado e iluminado acerca do sentido do chavão tão conhecido, de acordo com o ambiente familiar, social e cultural de cada um!
Eu, pessoalmente, pertenço a uma família que, não tendo propriamente um historial de activismo político (salvo honrosas excepções) - sobretudo não antes de 74 - viveu oprimida durante o regime salazarista e foi afectada por ele, nomeadamente com a guerra ultramarina.
É um pouco triste constatar a mudança gradual de sentimento da generalidade das pessoas em relação ao significado desta data, triste mas nada surpreendente! Esta mudança não tem nada a ver com um sentimento geral mais ou menos revolucionário ou reacionário, tem única e exclusivamente a ver com a passagem do tempo e com o envelhecimento das pessoas!
...

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A elaboração deste post foi interrompida no dia 25 de Abril, a meio da tarde, porque aqui onde me encontro o dia não é feriado e tive de ir ensaiar!
O facto de agora me ter decidido publicá-lo é uma espécie de afirmação... de várias coisas, umas mais pessoais, outras mais (ou menos) ideológicas.
Não consigo sequer tentar concluir o que estava a escrever antes, até porque na altura, lembro-me, estava a começar a perder a fluidez, e a embrenhar-me numa confusão intelectual, conceptual, artística, literária, mental... em suma, estava a perder o fio à meada e a não dar conta do recado! Além disso, se o tentasse retomar agora, não antevejo que pudesse escrever algo minimamente mais claro ou relevante, tanto mais que me tenho andado a sentir extraordinariamente desinspirado (pelo menos, pelo menos (sic.) do ponto de vista literário), como se nota pela ausência de posts.
Portanto direi apenas que acho que o "bottom line", o cerne da questão que me apetecia abordar, é que dou uma enorme importância à data em causa, porque me foi ensinado o seu significado, e (pelo menos assim quero crer) porque pessoalmente me apercebo da importância fulcral que teve na nossa história nacional e nas vidas dos portugueses - dos que nasceram antes de 1974; dos que, como eu, nasceram relativamente pouco tempo depois e, porque não dizê-lo, dos que nascem hoje!!!
Esta teria sido a minha contribuição exclusivamente pessoal. Quanto a uma questão um pouco mais complexa - a de meditar acerca dos significados, consequências, extrapolações e possíveis malefícios de um certo "apagamento da memória" - talvez não me caiba a mim abordá-la e não tenha sequer ninguém com quem discuti-la. Assim como assim não me parece que tenha as competências - académicas, culturais, científicas, intelectuais, etc - necessárias ou suficientes para acrescentar verdadeiro conhecimento à sociedade (ainda que seja uma sociedade composta apenas pelos 2... 3 leitores do meu blog), e portanto acho que ficará por discutir... talvez para uma outra ocasião - pessoalmente espero celebrar o 33º aniversário, o 34º, talvez no 35º já esteja de novo em Portugal e espero que o 50º não me seja indiferente!!

Quanto ao que a publicação deste post possa ter de mais ou menos significativo... bem, quanto a conteúdos de carácter ideológico-social e a questões mais exteriores a mim próprio acho que não preciso de me alongar mais. Quanto ao que pode dizer sobre a minha pessoa... enfim, duas semanas de atraso dão para tirar muitas ilações! É um hábito: de vida, de trabalho, de abordar as responsabilidades; mas o post aqui está, tarde, mas está!!
É sintomático dos meus últimos meses (esta moleza... esta preguiça... esta letargia... que não é de agora, mas tem fases... às vezes está mais activa, outras vezes menos, ora parece que desaparece, ora que me paralisa. É assim como uma espécie peculiar de Herpes... corre-me no sangue, mas nem sempre está em chaga!) e não é por ser o 25 de Abril que foi mais ou menos negligenciado ou adiado. Quem me conhece melhor sente que ando ausente, até de me entregar às relações com as pessoas que me são verdadeiramente importantes, por exemplo - além de fisicamente, também na energia que lhes dedico!
Não sei nem se posso nem se devo fazer algo em relação a isto... mas pelo menos ao 25 de Abril aqui está o meu sincero pedido de desculpas sob a forma de um post egocêntrico!
E, para terminar, acho que este post também celebra, de uma - quiçá duas - maneiras muito particulares o espírito de Abril. Para já, fazendo um paralelo com outro feriado bem conhecido, acho que o 25 de Abril é (ou devia ser) quando um homem quiser!... ou uma mulher, que para alguma coisa se fez a revolução!! Finalmente, este post é a aplicação prática das conquistas de Abril (será que existiria a internet e os blogs sem o 25 de Abril?): este post é a afirmação da minha liberdade individual para celebrar a data quando bem me apetecer... mesmo que seja a 11 de Maio!
Viva a liberdade e viva o 25 de Abril!

sábado, abril 15, 2006

Hilariante!!

"Deus no céu Eusébio na Terra! Todos os benfiquistas e portugueses estao te eternamente grátis!"
(Sic)

É o meu primeiro post vagamente relacionado com futebol...
Não quero fazer insinuações clubísticas de nenhuma espécie - embora não seja segredo para ninguém que me conheça que sou um Sportinguista convicto, ferrenho e a roçar o limite do fanatismo saudável (quem não me conhecia fica a saber desta minha faceta da qual me orgulho) - e por isso devo abordar este post com cautela!
Não quero generalizar acerca do nível cultural do benfiquista médio (ou do nível médio cultural dos benfiquistas, que talvez vá dar ao mesmo!), até porque tenho demasiados amigos lampiões bem mais inteligentes que a ave rara anónima que deixou o comentário que acabo de citar na página do record, e também porque deve haver muitas outras aves raríssimas, adeptos do meu Sporting, que poderiam prodizir outros tantos momentos brilhantes de literatura como a que acabo de citar.
Mas, o que é que querem, não consigo deixar de partir o coco a rir com o lampião que, em nome de todos os outros portugueses, se sente eternamente GRÁTIS ao Eusébio (ou "para com o Eusébio", se não quisermos ofender a nossa lingua de Camões!!!)!!

Já agora, se não acreditam, dêem uma vista de olhos pela página do record!

Já agora, se duvidas existirem, eu esclareço: "sim, estou com azia por o meu primeiro post sobre futebol não ser para mencionar a vitória do Sporting, pelo menos, no campeonato nacional..."
Tenho de dar os parabéns aos tripeiros pelo campeonato merecido, ficar à espera da mais que certa vitória do Sporting para o ano, e, entretanto, ir-me entretendo com as coisas nas quais serei sempre - a título individual e enquanto Sportinguista - superior à lampianagem!!

Estou-lhes eternamente grátis por serem hilariantes!!!

quinta-feira, abril 13, 2006

Estranhas menencolias

As "feridas psicológicas" saram da mesma forma que as físicas. Umas demoram mais, outras menos, mas todas ficam melhor com o tempo! Às vezes temos de as proteger do contacto com tudo o que possa ser agressivo, outras vezes convém deixarmo-las ao ar ou tomarmos um banho no mar e esperar que o sal ajude a curar!
Nem sempre o que arde ou o que doi cura, mas às vezes esse adágio popular é mesmo verdade. Não escondas essa dor, aceita-a se ela não for lancinante, e em breve ela passará!
Às vezes as feridas psicológicas deixam cicatrizes, outras vezes não! Uma ferida física, bem tratada, com atenção, até carinho (por estranho que seja tratar com carinho algo que doi), se não for muito profunda, não deixa marcas... mas mesmo que deixe, nem sempre essas marcas são más. Essas pequenas cicatrizes são pedaços de nós, lembranças de qualquer coisa.
Passa-se a mesma coisa com as feridas da alma... às vezes já nem nos lembramos delas quando deixam de doer, outras vezes a marca fica lá para nos recordar daquilo que nos aleija... e nem sempre isso é mau. Se a alma conseguir encontrar outras coisas com que se entreter, se não guardarmos rancores de nenhum tipo, se tivermos uma atitude de calma contemplação perante o nosso próprio passado, estas cicatrizes até podem suscitar tanta nostalgia como as recordações das melhores coisas por que passámos!

Abraço a toda a gente (D'A Haia, num dia em que o autor se encontrou tomado de estranhas menencolias)

P.s. - já vi um grande amigo afastar-se, outro menos grande... enfim... sei exactamente do que estou e estás a falar!

sábado, abril 08, 2006

O misterio do Nº de BI

Este Post é mais ou menos redundante, porque a única pessoa que eu tenho a certeza que o vai ler e comentar (pelo menos a que, aposto, vai ser mais rápida a comentar), foi precisamente quem me mandou a parte mais fundamental do mail que vou passar a transcrever!

Basicamente, esta é a minha humilde contribuição para o avanço e evolução da espécie humana... para acabar com o obscurantismo, com a ignorância e, finalmente, para combater um mito urbano no qual, até há umas horas, também eu acreditava!!... bem, mais ou menos, porque nunca me pareceu muito convincente a explicação!

O Mistério do algarismo suplementar no Nº de BI!!!!

Tomo a liberdade de transcrever um texto que me enviaram por e-mail, para servir de introdução à problemática! Aqui vai:



"Jorge Buescu

Com grande probabilidade o leitor terá já assistido, no meio de um jantar com amigos, à seguinte discussão. A certa altura alguém se pronuncia sobre o algarismo suplementar que os Bilhetes de Identidade passaram a ter de há uns anos para cá mais ou menos nos seguintes termos: "O algarismo suplementar que se segue ao número do BI indica o número de pessoas em Portugal que têm um nome exactamente igual ao do portador do BI".

Quando confrontado com o absurdo de tal afirmação (por exemplo, o algarismo suplementar do meu BI é 9 e eu posso comprovar que sou a única pessoa no Mundo, não apenas em Portugal, com o nome de Jorge Buescu; e que pensar dos casos em que o algarismo é 0?), talvez o interlocutor diga algo do género "Mas eu fui informado por fonte seguríssima de que é assim". Ou talvez prefira mudar de assunto. Uma coisa é certa: não vai mudar de opinião, e na próxima vez em que se falar do assunto lá estará a repetir a mesma afirmação, que depois será eventualmente repetida por novos crentes acríticos e assim sucessivamente. Assistimos assim à geração e propagação oral de uma lenda urbana genuinamente portuguesa, com certeza.

Afinal de contas, o que representa o misterioso algarismo suplementar que se segue ao número do nosso BI? Em primeiro lugar, ele não representa o número de pessoas com o mesmo nome, ou o número de multas de estacionamento que o portador apanhou, ou qualquer outra pueril e disparatada hipótese deste tipo. O algarismo suplementar é (ou seria, se as autoridades portuguesas não tivessem cometido um patético erro matemático!) apenas um algarismo de controle que detecta se o número do BI está correctamente escrito ou não.

Esta história começa nos anos 50, com o nascimento simultâneo, por um lado, da Teoria de Códigos, baseada na Teoria da Informação de Shannon (1948), e por outro da cada vez maior necessidade de tratamento e transmissão em massa de dados de identificação numéricos. Suponha o leitor que é, por exemplo, caixa num supermercado na era pré-leitores ópticos, ou que trabalha numa agência de viagens onde tem de emitir centenas de bilhetes de avião por dia, ou que trabalha numa livraria onde tem de expedir por correio centenas de livros encomendados por dia. Em qualquer destes casos será obrigado a digitar, para cada item em questão (pacote de manteiga, bilhete de avião ou livro) um longo número, talvez com 10 algarismos, que identifica o produto em questão. E tem de o fazer depressa, para que os outros clientes na bicha não se impacientem.

Os seres humanos lidam claramente mal com problemas deste tipo. Escrever diariamente centenas de números com 10 algarismos, sem qualquer padrão aparente, leva inevitavelmente (uma interrupção, uma piada do colega do lado…) a que o operador mais tarde ou mais cedo se engane a escrever um dos números. E as consequências podem ser bastantes desagradáveis: cobrar 20 contos por um pacote de manteiga, emitir um bilhete de avião para a Sibéria em vez de para o Rio, expedir o livro errado. Os custos para corrigir estes erros a posteriori podem, evidentemente, ser muito elevados.

Coloca-se então o seguinte problema: quando se lida sistematicamente com grandes quantidades de números compridos, em que mais tarde ou mais cedo se verificarão erros, há que identificar quais são os erros mais frequentes e encontrar uma forma automática de detectar, assim que o número é escrito, se ele integra erros ou não.

A resposta à primeira pergunta é do domínio da Estatística; sabe-se hoje que mais de 90% dos erros ocorridos na transmissão de dados numéricos são de dois tipos: erros singulares (alteração de um único algarismo, o que levaria por exemplo 2357 a ser escrito como 2358) ou transposições (troca de pares de algarismos adjacentes, como na passagem de 2357 a 2375).

O segundo passo é conceber um algoritmo que detecte, com eficiência 100%, a presença ou ausência destes erros. Se o conseguirmos teremos um mecanismo de detecção de erros com eficiência superior a 90%.

E é aqui que entra a Teoria de Códigos. Existem muitos algoritmos de detecção de erros, com aplicação tecnológica num número infindável de indústrias, assente na ideia básica de aritmética modular, proveniente da Teoria de Números. A ideia é a seguinte: ao número básico em questão acrescenta-se um algarismo suplementar, o algarismo (ou dígito) de controle. Realizando uma operação adequada (e vamos já descrever o que se deve entender por isto) sobre o número original, devemos obter o algarismo de controle. Se isso não acontecer, é porque ocorreu algum erro na escrita do número original.

A ideia de implementar sistemas de identificação com dígitos detectores de erros encontra aplicações quase infindáveis na indústria. É utilizada hoje nos cartões de crédito, nos cheques, na Via Verde, na correspondência postal, nos códigos de barras (UPC-EAN), nos livros (ISBN), nas publicações periódicas (ISSN), etc. Estes sistemas funcionam com variações de pormenor; para dar do seu funcionamento vamos tomar um exemplo: o ISBN (International Standard Book Number), utilizado na identificação de livros.

O ISBN é um número, que em geral aparece nas costas do livro, constituído por 10 algarismos que identificam o livro. Por exemplo, o livro de Hill A first course in coding theory tem o ISBN 0-19-853803-0; o livro de Kato et al. Number Theory I tem o ISBN 0-8218-0863-X (os traços são meramente convencionais). A maneira como o código ISBN funciona é simples: se o número ISBN for

x1x2x3x4x5x6x7x8x9x10,

onde cada xi representa um algarismo, os 9 primeiros algarismos identificam o livro; o 10º algarismo, o dígito de controle, é escolhido por forma a que a soma

x1+2x2+3x3+ … +10x10

seja divisível por 11 (tecnicamente, seja congruente com 0 (mod 11)). O leitor pode convencer-se facilmente de que, se alterar qualquer um dos algarismos (erro singular) ou se trocar dois quaisquer deles (transposição), o resultado já não será divisível por 11. Ou seja, o dígito de controle do ISBN detecta, com eficiência 100%, estes erros!

Apenas duas questões técnicas. Primeiro, porquê exigir que a soma acima seja divisível por 11 e não, por exemplo, por 10? A resposta está na Teoria de Números: estes algoritmos modulares só funcionam se o módulo for um número primo. Ora o nosso sistema de numeração tem base 10; o primo mais próximo de 10 é precisamente 11, o primeiro para o qual o sistema pode funcionar. Esta é também a resposta à segunda questão: o que significa o dígito de controle X? Como o dígito de controle é o complemento para 11 da soma ponderada dos 9 primeiros algarismos, ele pode tomar o valor 10. Para cobrir esta possibilidade introduz-se o caracter X, que tem a valor 10.

Regressemos então ao mistério do BI. Sendo o algarismo suplementar um dígito de controle para detecção de erros, torna-se necessário saber qual o algoritmo utilizado pelo Ministério da Justiça para efectuar esta detecção.

E aqui entra o herói desta história, o Prof. Jorge Picado, da Universidade de Coimbra. A sua curiosidade por esta questão levou-o a pedir os números de BI de algumas dezenas de colegas seus. Introduziu-os num pequeno programa em Pascal que fazia a busca dos vários algortimos num sábado de manhã e foi para casa.

Ao chegar ao seu gabinete, na segunda-feira de manhã, qual não foi o seu espanto ao verificar que… não existia nenhum algoritmo que funcionasse!

Intrigado com este surpreendente resultado, o Prof. Picado teve então uma ideia luminosa. Constatando que o dígito de controle do seu BI era 0, retirou o seu número de BI da lista e pôs o programa a correr. Bingo: em 5 minutos, tinha a resposta. O algoritmo de detecção de erros do Ministério da Justiça é igual ao do ISBN, com ligeiras adaptações: o dígito de controle tem peso 1, o dígito mais à direita do número de BI tem peso 2, o seguinte peso 3, etc. Faça o leitor a experiência com o seu próprio número de BI. Se fizer esta soma o resultado terá de ser múltiplo de 11.

Nesta altura, cerca de 1/11 dos leitores da Ingenium, e cerca de 50% daqueles cujo dígito de controle é 0, estarão a pensar que estou a enganá-los. É que, afinal, fizeram as contas e obtiveram um número que não é divisível por 11. Pelo contrário: é um múltiplo de 11 mais 1! E, afinal, porque é que o Prof. Picado teve de retirar o seu número de BI da lista para descobrir o algoritmo de detecção?

A resposta a estas perguntas é apenas uma, e completamente patética. Como se disse acima, no ISBN (e no BI) o dígito de controle tem de estar entre 0 e 10, para que se possa assegurar resto 0 ao dividir por 11. É essa a razão de ser do caracter alfanumérico X, que vale 10, no dígito de controle do ISBN.

Ora, muito provavelmente alguma mente burocrática da Direcção-Geral dos Registos e Notariado deve ter achado muito desagradável que alguém visse um "X" escrito à frente do seu número de BI, enquanto que outras pessoas tinham apenas um algarismo. Talvez pudesse ser considerado politicamente incorrecto… e a pessoa pudesse pensar que isso teria um significado estranho… talvez cadastro? Ficha no SIS?

Para abreviar: alguém no Ministério da Justiça, na sua reconfortante ignorância matemática sobre códigos, teve a brilhante ideia de substituir o dígito de controle X, quando ocorresse, por 0. Ou seja, quando 0 ocorre como dígito de controle, pode ter na realidade dois valores: 0 ou 10! Ou seja, em metade dos casos em que ocorre o 0 (como no caso do Prof. Picado), esse dígito está errado. Ou seja, o próprio Arquivo de Identificação emite um BI cujo número, se controlado pelo seu algoritmo, estaria errado.

A ignorância pode custar muito caro. Neste caso, custou a inoperância do sistema de detecção de erros que se pretendia implementar! E repare-se que teria sido muito fácil não cometer esta barbaridade: bastava, por exemplo, adoptar como dígito de controle sempre uma letra, digamos as 11 primeiras letras do alfabeto, A a L…

E haveria outras soluções matematicamente correctas, mas mais profundas. O Prof. Picado mostra como, a partir da Teoria de Grupos elementar, usando o grupo diedral D5, se podem construir sistemas de detecção de erros (diferentes dos sistemas modulares, e mesmo melhores do que eles) que permitem usar apenas os algarismos 0 a 9, e com eficiência 100%. Em Novembro passado, o Prof. Picado escreveu para o Ministério da Justiça (responsável pela emissão dos BI) expondo a situação e a sua solução. Até hoje ainda não obteve resposta.

Há pouco tempo, o Prof. Picado foi renovar o seu BI. Na página de instruções do impresso, o ponto 2 afirma "se já tem BI, indique o respectivo nº, incluindo o dígito mais à direita (chamado dígito de controlo e que serve para verificar se a ordem dos algarismos está correcta)". Quando entregou os documentos, disse com toda a razão à funcionária que o atendeu, "Olhe que isto no meu caso não é verdade". A funcionária não disse nada, dirigiu-lhe um olhar estranho, e limitou-se a aceitar os papéis e a atender o mais rapidamente possível aquele utente tão especial…"



End of quote!
Dou um segundo aos leitores para recuperarem o fôlego...
Espero não vir a ser processado por infringir leis de direito de autor, mas acho que a minha modesta tentativa de tentar tornar acessível esta informação ao maior número possível de pessoas justifica o risco!!

Enfim, como devo confessar que me deu um enorme trabalho perceber a parte da explicação matemética (aliás, a teoria explicativa continua a ser um mistério para mim), foquei a minha atenção apenas no processo através do qual cada um pode fazer o "controlo" do seu próprio Nº de BI, e passo agora a explicá-lo numa versão hiper-simplificada... para leigos (ainda hesitei sobre se deveria escrever "para burros" porque não quero ofender ninguém... mas como eu próprio me incluo no lote dos que precisam desta explicação, talvez já não seja tão ofensiva a referência aos asnos... esses animais tão queridos... e Inteligentes!).

A operação aritmética é a seguinte:
(peguem numa máquina de calcular, é mais simples!)

(Algarismo de controlo x 1)
+
(Último algarismo do Nº de BI x 2) ... atenção - têm de somar o resultado da operação "último algarismo x 2"... se somarem o último algarismo ao Nº de controlo e DEPOIS multiplicarem por 2 DÁ ERRADO!!!
+
(segundo algarismo do BI, a contar da direita, x 3)
+
(terceiro alg., a contar da direita, x 4)
+
etc etc etc

no final, dará um número qualquer, que têm de dividir por 11! (e de preferência não demorar demasiado tempo a questionar "mas, dividir por 11 porquê??")... depois de dividir por 11 o resultado será um Nº QUALQUER... INTEIRO!!!
Ou seja, se for um Nº inteiro, o controlo está feito e o Nº é correcto (meaning: não se enganaram a escrever o vosso número de BI)
Se o resultado for qualquer coisa vírgula qualquer coisa, significa, das duas uma: ou se enganaram a fazer as contas, ou o algarismo de controlo é 0 quando na verdade deveria ser 10 (que não existe), ou X (como nos códigos ISBN!!)
Esclarecidos?

Acho que, basicamente, para 10/11 da população (todos aqules cujo número de controlo é entre 1 e 9 mais os que têm 0 e cujas contas batem certo) isto serve, na prática, para, depois de fazer esta operação uma vez, podermos ir todos dormir descansados e, eventualmente, fazer como eu - espalhar o conhecimento da verdade sobre este assunto tão relevante para o nosso dia-a-dia. Para os restantes 1/11, esta informação é uma pequena tragédia que vai abalar o vosso mundo e nunca mais vos deixará ser os mesmos... é que a partir de agora sabem que são uns proscritos da sociedade e que as autoridades escreveram um 0 no vosso BI, onde deviam ter escrito um X... ou um 10 (o X vale dez... aliás podem fazer de novo as contas com 10 como algarismo de controlo e vão ver que bate certo)!!!
Mas, neste engano, há aspectos positivos para todos vós, ALEGREM-SE!!!
Para já significa que não são um 0!! (à direita, mas mesmo assim não é bom ser-se um 0... as minhas desculpas àqueles cujo algarismo é MESMO 0!) e depois significa que, uma vez que o vosso número correcto de BI, com o algarismo de controlo errado é... INCONTROLÁVEL!!! Logo, mantendo o 0, podem dar-se ao trabalho de fazer as contas de modo a que, com pequenas alterações de alguns algarismos ao vosso número actual de BI, a operação bata certo... pensem só nas possibilidades de ter um Nº de BI novinho em folha!!! Que em princípio é CORRECTO!!

Bom, uma vez que me estou a desviar para o campo da ilegalidade e isso não é muito compatível com as minhas intenções de propagar o conhecimento e a verdade, acho que é melhor terminar por aqui, até porque quem quer que seja que se tenha dado ao trabalho de ler isto até ao fim, merece um prémio!!!
Enfim, espero que esta informação tenha sido útil, se tiverem dúvidas, perguntem!
Um apelo final: Comentem!! e, sobretudo, espalhem a palavra!!!
Quero acabar com o mito de que existem por aí mais 8 Jxxx xxnxxx xxdxxxxxx xxxxs... É MENTIRA!!!
Abraços!!

sábado, março 25, 2006

Blog adormecido

Post sobre nada... nada mesmo... apenas para desentorpecer e, quem sabe, prenunciar dias mais produtivos em termos de escrita...
A(s) música(s) e a vida de "casal" não permitem mais... será sempre assim?
Espero voltar em breve... se não passa de adormecido para hibernado!
Dug

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Che boludo

Eran seis hermanos Jerte cuando Paco se murió
Eran seis hermanos Jerte cuando Paco se murió,
Paco Jerte se murió de sarampión,
y quedaron cinco Jerte cuando Paco se murió!

quarta-feira, janeiro 25, 2006

O valor da mudança!

Não, já não é de política que estou a falar! A "mudança" do título do post não tem nada a ver com a recente novidade política - quanto a esta já me consciencializei de que o melhor a fazer é habituarmo-nos, resignarmo-nos aceitando a alternância democrática, esperar que a(s) pior(es) característica(s) do nosso novo presidente sejam "apenas" aquelas que já são sobejamente conhecidas: incapacidade para exprimir ideias clara e incisivamente; enormíssimo défice de presença, do dom da palavra (creio que esta ideia não é tão fútil quanto isso na avaliação de um Presidente da República); duvidosas intenções relativamente ao papel que deve ter o chefe de estado no quadro do nosso sistema democrático... enfim, não me quero alongar mais quanto a defeitos e espero que sejam só estes e que o nosso Cavaco não se meta a fazer disparates. Finalmente, em relação a esta mudança não tenho mais nada a dizer, a não ser talvez "pra melhor está bem está bem, pra pior já basta assim".

Portanto, depois desta dissertação sobre o que o que o post não vai (ia) ser, volto ao "valor da mudança".
Mudança pessoal e individual! Mudança de atitudes, mentalidades, maneira de estar na vida, perante nós próprios e os outros, maneira de lidarmos com as nossas qualidades, mas sobretudo com os nossos defeitos. É essa a mudança que tem um valor incalculável!
Nem vale a pena falar do que mudar, como mudar, ou porquê mudar. Essa é a parte da mudança que é tão pessoal que nem sequer vale a pena ser abordada por alguém exterior (Porquê mudar? Porque está mal! O que mudar? O que está mal! Como mudar? Sei lá! Depende do que estiver mal!! Mas qualquer um destes pares pergunta/resposta só é verdadeiramente relevante se for colocado por cada um de nós, candidatos à mudança, individualmente e com seriedade!)! O que é que sobra então acerca de mudança? Umas quantas constatações e algumas considerações pessoais!

Constatação - As pessoas mudam pouco!
Não tenho complexos em afirmá-lo assim peremptoriamente! Para mim é uma evidência! As pessoas mudam pouco, pouco de cada vez, poucas vezes profundamente, poucas vezes com verdadeira intenção de manter essas mudanças ou de que elas sejam mais do que pequenas operações de cosmética destinadas a encobrir alguma falha e não a corrigi-la de facto, e muito, muito poucas vezes por vontade própria ou sem que a mudança seja despoletada por algum acontecimento exterior!
Já não posso afirmar tão peremptoriamente o porquê desta constatção. Não sei se faz parte da natureza humana o imobilismo, e nesse caso se é por egoísmo, preguiça, inércia, maldade, opurtunismo, um pouco de todas estas características ou outras quaisquer! Mas enfim, acho que qualquer que seja a razão, é bastante negativo que a esmagadora maioria das pessoas seja tão avessa à mudança, ainda que deva dizer que compreendo pelo menos algumas das razões e atenuantes para esta aversão.
Por exemplo, compreendo perfeitamente que não seja fácil identificar, ou conviver pacificamente, ou confrontar, ou ter a força de espírito e a coragem suficientes para mudar os nossos defeitos. É sem dúvida muito mais fácil e confortável (mas incomparavelmente pior para nós próprios e normalmente também para os outros) simplesmente tentar ignorar as nossas falhas - e conheço tanta gente que não sabe fazer outra coisa, alguns inconscientemente, mas outros com absoluto despudor, o que ainda é pior!
Claro que também há quem quem identifique as próprias falhas e não faça grande coisa para se aperfeiçoar, sem contudo ser mal intencionado! Mas atenção, não quero com isto fazer crítica a ninguém, aliás sinto por vezes que me insiro nesta nobre categoria e a maneira como entendo esta posição é qualquer coisa do género: "eu faço introspecção; se me perguntarem eu sei dizer quais são os meus defeitos porque estou bem consciente deles; isto é muito mais do que faz a maioria das pessoas e, além disso, os meus defeitos nem sequer prejudicam substancialmente as pessoas que me rodeiam, por isso talvez um dia eu faça por mudá-los, corrigindo-os para melhor... mas não agora!"

Constatação - Não é fácil mudar!
Parece uma contradição com o que acabei de dizer, mas a verdade é que eu acho mesmo que é difícil mudar verdadeiramente; seja porque se identificaram coisas que não nos agradam em nós próprios mas não se sabe como mudá-las, ou porque se tenta mas não se consegue abandonar velhos hábitos; seja porque não se consegue identificar ou ter a verdadeira noção de quais são os problemas; ou seja ainda por não se ter a noção de que, às vezes, há características nossas e maneiras de estar com os outros e encarar a vida que, não sendo problemas no imediato, exigem mudança, evolução, adaptação, porque mantendo-se imutáveis acabam por se tornar não só em problemas, mas em defeitos enraizados na maneira de ser apenas por força do hábito (características que as pessoas têm "porque sim" ou, muito redundantemente, "sou assim porque sou assim")

Consideração pessoal - Acho mau e triste não se mudar!
Não se pode forçar ninguém a mudar e talvez nem se possa ou deva sequer interferir na mudança de cada um porque é uma escolha individual! Mas acho que é uma pena que muita gente não mude por não sentir, ou negligenciar e menosprezar esse impulso de mudança que, quanto a mim é também um sinal de inteligência (será que daqui se podem tirar ilações acerca da inteligência de cada um, ou será que contemplar e meditar ou não sobre estas questões é mesmo só um traço de personalidade e eu estou a extrapolar demasiado, ou como se diz em bom português, a tirar nabos da púcara?)

Consideração pessoal - Acho ainda pior escolher não se mudar (seja por que razões for: comodismo, receio, teimosia, egoísmo, etc, etc, etc.

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Este post foi interrompido há mais de um mês e nunca mais me dei ao trabalho de o concluir... aliás, negligenciei o meu blog durante um mês, e por isso nem me lembrei do post! Lembro-me de, na altura, ter mais coisas a dizer sobre o assunto, mas é evidente que já não faço ideia do que fosse, nem me apetece voltar a pensar nisso! O que está dito é o que eu penso, e o que não escrevi, para a quem este post é destinado (sim, acho que és a única pessoa que está à espera da publicação deste post!!!), não precisa de ser escrito!

tot volgende keer!

domingo, janeiro 22, 2006

Presidenciais - II

*suspiro*

2745491... repito para dar mais ênfase: DOIS MILHÕES, Setecentos e quarenta e cinco mil, quatrocentas e noventa e uma almas, acharam que Cavaco Silva era a melhor alternativa para presidente de Portugal...

*suspiro*

Ainda não estou preparado para fazer mais declarações sobre o assunto... mas o meu silêncio é fácil de ler e as minhas opiniões sobre o mesmo estão facilmente subentendidas!

Presidenciais - I

Para mais tarde uma reflexão mais séria!
Uma vez que estou um pouco abalado começo por um fait-divers que é, também, um piscar de olho à minha amiga Ana:

Se nestas eleições, à semelhança do que acontece nas legislativas, os votos brancos e nulos entrassem nas "contas" finais, Cavaco Silva, em vez de 50,6% dos votos, teria obtido 49,6% e, consequentemente, NÃO teria sido eleito à primeira volta! (cometo um lapso propositado, mas às vezes têm de se adaptar os números às nossas expectativas, mesmo distorcendo-os ligeiramente para servir os nossos propósitos, quando eles não são o que estavamos à espera. É que, apesar dos votos brancos e nulos entrarem para as contas das outras eleições que não as presidenciais, evidentemente NÃO são contados na atribuição dos mandatos, apenas são contadas as suas percentagens... logo a situação é semelhante às eleições presidenciais, uma vez que um voto branco ou nulo não elege ninguém - nem sequer um presidente "branco" ou "nulo".
Ainda assim, aqui ficam os resultados do OMO - 1,06% correspondentes a 58700 e picos (estão 3 freguesias por apurar) e dos nulos 0,79%, 43329 votos... a brincar a brincar ainda são mais de 100000 pessoas!!)
tijay

sábado, janeiro 21, 2006

No meio de nada

A minha vida está aqui... está cada vez mais aqui; inapelavelmente, progressivamente e sem eu dar conta foi-se mudando para cá!
E no entanto está lá também, uma parte importante dela, pelo menos!
Cá está quase tudo e, no entanto parece que faltam algumas coisas bastante importantes, fundamentais, diria mesmo! O lá parece que se constroi cada vez mais em oposição ao cá (parece que quanto mais tempo se passa mais se vão tornando mutuamente exclusivos) - mais ou menos pelo mesmo processo através do qual se constrói a identidade por oposição ao "outro".
Acontece que, ao contrário da questão da formação da identidade, na questão da formação deste "espaço virtual" que sou eu, esse cá e lá que se excluem são ambos "eu"... não são "eu" vs. o "outro", o que se me configura como um problema!
Quando cá estou faltam-me as coisas de lá, embora a um nível muito subconsciente, porque me sinto muito bem e enquadrado cá - se não enquadrado com o que me rodeia, pelo menos comigo mesmo e com os que me são próximos, ou com um pedaço de mim que criei independentemente do que está à volta. Mas, simultaneamente, quando lá estou, as coisas que cá criei não podem nem de longe nem de perto ser recriadas e tenho de me reinventar demasiado, quase por completo.
Começo a sentir que se calhar não estou nem cá nem lá, estou algures... no meio de nada!

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Hemophiliac 50-6

O caos tem regras... uma certa consonância, uma certa inevitabilidade, que me ultrapassa e me reduz a uma insignificância que já sabia ter! O caos sonoro tem um poder que move mesmo os menos fluentes na linguagem peculiar em que se expressa! Para aqueles que dominam um tipo de linguagem sonora (seja ele qual for), o caos sonoro, mediado pela criatividade infinita e que brota em jorros incontroláveis do artista, tem uma força e um poder que são sublimes, assim a mente os saiba utilizar e canalizar na direcção certa, direcção essa em que caos, som, poder, força, se tornam inapelavelmente em energia vital, em energia criadora, em absoluto!!
A criação artística está cheia de regras, a inspiração não! A divagação é um dos expoentes do caos! O caos pode ser sonoro, mental, pictórico, aquilo que se quiser e para o qual cada indivíduo tenha mais inclinação! Eu devo confessar que sou um adepto do som e dos devaneios da mente, mas se os sinto com esta intensidade consigo conceber que ele - o caos - se manifeste sob inúmeras formas, INFINITAS, consoante os sujeitos que o percepcionem e o sublimem! Faço uma apologia do caos inesperada! Inesperada porque o ponto de partida e de chegada deste devaneio são tão díspares como o som que o originou, os percursos sinuosos da mente que o amplificaram, ou a própria existência artística que o justifica e comprova!
Ainda assim; e com pouca vergonha ou complexos perante a evidente falta de nexo e fio condutor... ou talvez precisamente pela beleza que nestes dois pontos encontro; faço, uma vez mais, com energias renovadas e um frémito sensorial a percorrer-me a alma...
o Elogio do Caos!
Caos
Caos
Caos

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Nome de Rua

Deste-me nome de rua,
de uma rua de Lisboa.
Muito mais nome de rua
do que nome de pessoa
Um desses nomes de rua
que são nomes de canoa!

Nome de rua quieta,
onde, à noite, ninguém passa,
onde o ciúme é uma seta,
onde o amor é uma taça.
Nome de rua secreta,
onde, à noite, ninguém passa,
onde a sombra de um poeta
de repente nos abraça.

Com um pouco de amargura,
com muito da Madragoa.
A rua de quem procura
e o riso de quem perdoa.
Deste-me nome de rua
Numa rua de Lisboa

Nome de rua quieta,
onde, à noite, ninguém passa,
onde o ciúme é uma seta,
onde o amor é uma taça.
Nome de rua secreta,
onde, à noite, ninguém passa,
onde a sombra de um poeta
de repente nos abraça.


(P.s. - seguindo o conselho de um dos leitores do meu blog convém mencionar que este poema não é meu... mas é a letra de um fado já existente que pode vir a ser o meu primeiro passo nesta aventura "fadística" em que me vou meter... logo se vê!!)

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Cinismo

É estranho ser apenas agora que publico o meu primeiro post directamente relacionado com música, ainda para mais um que não vai ser tão extenso como eu creio que o assunto mereceria, mas enfim, foi um pensamento que me ocorreu há uns minutos e que não se podia perder no nada do esquecimento e, assim, fica registado (a importância que possa vir a ter logo se vê)

Assistindo a um "voorspeelavond" (vulgo "audição" em Português) de Traverso numa sala muito pequenininha do KonCon e, distraido, enquanto ouvia, a olhar pela janela (a sala era num quinto andar, já agora) que dá para um amontoado de prédios enormes, uma autoestrada, várias linhas de comboio e de tram (eléctrico), etc, etc, etc, dei por mim a divagar e devanear acerca do sentido, se não da vida, pelo menos do meu rumo na vida, nomeadamente enquanto músico.
Vou explicar melhor.
A dicotomia e desfasamento entre 2005 - com a autoestrada, os prédios, o comboio, etc, que, por si só já são um pouco "chocantes", mas funcionam aqui só como amostra e metáfora do nosso tempo, do nosso século, com o que tem de bom mas, sobretudo, com o que tem de mau - e uma Cantata de Telemann, uma Sonata de Bach, uma Suitte de Hotteterre, Uma Sonata de Leclair ou outra de Händel, enfim aquilo que eu escolhi fazer na vida, esse desfasamento, dizia eu, é demasiado grande, diria quase monstruoso, para que, pelo menos, não valha a pena eu me deter um bom bocado a pensar sobre a questão!
E a questão é... porquê? qual o sentido? de ouvir e sobretudo de fazer música escrita há 400, 350, 300 anos!!??
É evidente que a resposta simples a esta questão complexa está na Música, ela própria, em geral e em cada uma das peças individualmente! Mas há mais, tem de haver mais (de outro não me teria dignado a passar estes pensamentos para palavras escritas!)
E esse extra de dúvida e problemática reside noutra questão... COMO? como fazer música, como tocá-la, como viver perante ela, que papel e participação lhe atribuir na vida!? Este post chama-se cinismo porque essa é uma das maneiras de responder a esta questão: como? com cinismo! Sim, exactamente, não é engano! É cínico tentar tocar-se a música (pelo menos esta música) com uma autenticidade que será sempre inatingível!!!
A esta conclusão não cheguei eu em primeira mão, longe disso! Mesmo os puristas e mais fervorosos adeptos da autenticidade na interpretação de música antiga, se forem minimamente inteligentes e/ou não estiverem já completamente desligados do mundo real, do séc. XXI já devem ter vislumbrado algo semelhante a isto - embora duvide de que lhes passe pela cabeça usar a palavra cinismo - por estas ou por outras palavras, pelas mesmas ou por razões ligeiramente diferentes.
Se eu sei o que é um comboio, um arranha-céus, uma autoestrada ou, muito mais significativamente, uma bomba atómica, não posso aspirar a tocar a minha suite de Philidor como ela seria tocada por um músico do séc. XVIII em França que, obviamente, ficaria tão estupefacto se, por acidente, viesse parar ao século XXI como eu, se fosse parar ao XVIII!
Um purista diria que, não sendo um objectivo atingível, é um ideal a perseguir... eu (pelo menos hoje) chamo-lhe cinismo! Se eu nunca tocarei a música como ela soava há 300 anos - por todas as razões e mais uma - se eu sei disso, se os outros sabem disso e se sabem que eu sei disso, então, se eu o tentar fazer obstinadamente, isso é cinismo!
Esto no departamento de "Early Music and Historical Performance Practice" - música antiga e interpretação histórica... na Música Antiga acredito... da Interpretação Histórica reservo-me o direito de duvidar (enfim, resta saber QUE interpretação histórica... DE QUEM... QUE Interpretação... QUE História????).
Não posso tocar essa música dessa maneira, mas se calhar NÃO QUERO tocar essa música dessa maneira! Quero tocar essa música da melhor forma possível, mas será sempre a minha maneira... À MINHA MENEIRA!
Em relação à minha escola... bem, continuo a achar as vantagens incomparavelmente maiores do que as desvantagens (com interpretação histórica à mistura e tudo), e acho que o melhor que tenho a fazer é aprender o mais e melhor possível a tocar esta múscia, mesmo nesta corrente estilística... se não o conseguir não vou ter legitimidade para depois dizer... não, não é isto que eu quero!
Por isto mesmo e porque o post já vai mais longo do que eu estava à espera, tenho de me despedir, já estou atrasado para um ensaio!
Vou fazer música antiga...

sexta-feira, dezembro 02, 2005

A boca do inferno

Quem me conhece melhor sabe que sou um fã confesso (entre outros) do tipo de humor do Gato Fedorento.
A minha namorada não gosta, eu sei, tento compreender mas é-me complicado, e já desisti até de a tentar convencer. Acho que é aquele "je ne sais quoi" de "non-sense", com umas influências longínquas de Monty Python, mas muito menos britânico, muito mais tuga, que é capaz de ser o que me atrai a mim e a deixa indiferente a ela (a porTUGAlidade escarrapachada)! É pateta até dizer basta e acho que é esse o único segredo, se é que é segredo: é, enfim, RIDÍCULO (vide as origens etimológicas da palavra).
Mas o assunto do post é outro, é um dos membros "gone solo". É como se de um consort ou ensemble, se retirasse apenas um elemento e se o atirasse às feras. Esse elemento é o Ricardo Araujo Pereira que, para quem não saiba ainda, é um dos mais recentes colunistas da Visão (esse elo de ligação deste emigrante que aqui escreve entre Portugal e um enclave que existe aqui na Holanda - o meu quarto), que acho que se dá muito bem com esse tipo de número, sem rede.
O tipo de humor d'A boca do inferno é refinada e subtilmente diferente de, por exemplo, o do gato fedorento (e de outros tipos de humor mais boçais que não deixo de apreciar... assim tipo Manuel João Vieira - deixem-me fazer um pouco de (pré)-campanha (pré)-presidencialista: "Um Banana para uma república" e "Só desisto se for eleito", etc. etc. etc., se não conhecem deviam ir pesquisar em www.vieira2006.com). Falta lá precisamente a porTUGAlidade escarrapachada e é simultaneamente mais soft, menos hilariante, mas mais sério, um pouco mais intelectual e, em momentos de genialidade, muito mais pertinente (ou impertinente).
É desses momentos de génio que me apetece falar, sobretudo porque, como leitor assíduo que sou das suas crónicas, consigo seguir também as oscilações de forma do cronista (a linguagem e metáfora futeblística encaixa-se aqui bem, acho eu). A verdade é que, apesar de continuar a ler as suas crónicas semanalmente, acho que o Ricardo andava fora de forma. 'Tá bem, arrancava-me de vez em quando uma garagalhada esporádica, mas nada que alterasse substancialmente o meu estado de espírito e humor. Estava já a ficar preocupado porque acho que isto vinha acontecendo já há algumas semanas ou até meses... até esta quinta feira!
Amigos, aconselho vivamente a leitura da crónica desta semana. Mas Atenção: se nunca leram uma "crónica" do também colaborador da visão António Lobo Antunes (não sei bem se são crónicas, o que publica o escritor na visão) provavelmente nem vão rir sequer... mas se fizerem a experiência de ler umas quantas crónicas do António, mais umas quantas do Ricardo e por fim a desta semana do último, então vão perceber a síntese entre António, Ricardo, Visão e Gato Fedorento.
Acho que é precisamente assim que se deve parodiar uma pessoa (se alguém alguma vez escrever assim sobre mim, ou imitar o meu estilo, a fazer seja o que for, da mesma forma que a "caricatura" do António pelo Ricardo, eu vou rir a bandeiras despregadas e vou sentir-me honrado!). Sinceramente nunca li nada de Lobo Antunes (que eu saiba, por exemplo um sobrinho dele que eu cá sei também nunca leu, por isso não deve ser muito grave a minha ignorância, porque o sobrinho é um músico fantástico e uma pessoa porreiríssima), mas tenho respeito pelo senhor apesar da sua crónica bi-mensal ser das poucas coisas que nunca ou raramente leio na Visão. Mas acho que o Sr. Lobo Antunes, se tiver sentido de humor, se sentirá honrado pel'A boca do inferno desta semana... tinha curiosidade em saber, por acaso... mas se não, aí é que eu nunca me meteria a ler um livro dele!
Z dixit, mas já chega. Basta também de posts telegráficos, mas se calhar este passou um pouco do barroquista para o lado do "testament-like"
Não sei se hei-de escrever sobre as minhas orientações políticas, mormente na questão das presidênciais que se aproximam... vou pedir aos meus pouquíssimos leitores assíduos (eu sei quem vocês são e que estão aí desse lado do computador... até vos estou a ver as caras e tudo) que me dêem algum feed-back sobre o assunto e depois decido se torno ou não públicas as minhas opiniões bastante básicas sobre política.
Tijay

quinta-feira, novembro 24, 2005

Sonetos e sotenoS - I

Dois-me mais aqui onde não te vejo,
fico num estado de melancolia,
faz-me falta essa tua energia,
o teu calor, conforto e o teu beijo.

Ensinas-me a saudade dia-a-dia,
enquanto não te tenho e te desejo.
Aqui não há colinas nem há Tejo,
não há deslumbramento nem magia,

não há nem miradouros nem calçadas,
não há nada com o mesmo sabor,
todas as coisas são acinzentadas.

Amar, onde eu nasci, tem outra cor,
é azul e tem telhas encarnadas
e se não veio de lá não é amor.

Sonetos e sotenoS - II

Quero pintar palavras com pincel,
ou descrever pintura num papel,
poder ser por um dia genial.

Contar histórias com uma melodia,
transformar essa Música em poesia
e descobrir aquilo que me inspira.

Mas tenho medo de ser só banal,
de não ser nada mais que uma mentira,
ser só alguém por quem ninguém suspira,
ou pior: ser simplesmente normal!

Sonetos e sotenoS - III - Gastronomia musical

Não sei se é um soneto ou uma sonata,
é-me igual, sou muito pouco exigente.
Por mim podia ser uma batata,
era-me mais ou menos indiferente.

Adagio, Allegro, Andante, tanto faz,
não tenho autonomia musical.
Bacalhau cozido, frito ou à bráz,
se for bem temperado, é-me igual!

Parece brincadeira mas é sério;
aquilo que me vem parar à boca
é para mim quase sempre um mistério.

E Música; Romântica ou Barroca,
é uma escolha quase sem critério,
pois personalidade tenho pouca.

Sonetos e sotenoS - IV - Rifão (quase) quotidiano

Não há duas sem três, já diz o povo
e eu acrescento um provérbio novo:
"quem fez três também pode fazer quatro"

Assim faço sonetos à pressão,
agora é só carregar no botão
e sai-me esta métrica ao desbarato

Sonetos sem conteúdo e sem sentido,
sobre tudo, mas sobretudo nada,
'inda por cima com a forma errada;
é um soneto, sim, mas invertido!

Som

Uma roda rodava pela rua,
redonda, rodopiava no asfalto.
As folhas afastavam-se, num susto,
à espera de serem esmagadas.

O céu cinzento sussurrava
ameaças de chuva sazonais
e os pássaros piavam, perdidos,
pelas portas dos prédios sempre iguais.

Um dia de Dezembro desinteressante,
de dor, de dormência e de tédio,
esperando, esquecido nesta estupidificação,
um estado de espírito que me desperte.

Conquanto continue a querer ficar aqui,
questiono-me constantemente
sobre o porquê desse querer,

tudo é tão triste, tétrico até,
totalmente contrário a tantas espectativas
que durante tanto tempo fui criando...

O céu é cinzento e chove sempre;
a comida cinzenta e sempre sem sabor,
e na rua a roda roda, roda...
as folhas afastam-se, fogem...
os pássaros piam...
Dormente, durmo, cá dentro
e deixo a dor lá fora quando desço
os cortinados sobre as janelas


A Haia - 7/VI/MMV

terça-feira, novembro 22, 2005

hard work, life, the universe and everything!

Problems are meant to be overcomed!
Limits are made to be pushed!
Rules are meant to be broken!

Keeping the head above the water line!
Easyer said than done...

-//-

Os problemas existem para serem resolvidos!
Os limites existem para serem ultrapassados!
As regras existem para serem quebradas!


Tantos pensamentos e posts em potência na minha cabeça, e tão pouco tempo para os fazer existir.
É a minha eterna angústia e batalha interminável contra Kronos!

quinta-feira, novembro 10, 2005

No Problem

I was competing in the 2nd-freestyle-transatlantic-cross over on my ultra sonic jetmachine... after 2 days and 4 hours I was right behind an American powerboard-rider... He tried to attack me. But I got my machine ready to dive and fly... when he nearly hit me with 90 miles an hour I dived down and immediately launched myself skyhigh. I JUMPED 120 YARDS AHEAD OF HIM... that day I was the winner and I have this picture to prove it!

That's what you get when you have no problem - everything seems so special just for no reason and in a way you don't recognize the day after!

Truth or dare?

Do I dare or do I stick with the truth?

I guess I'll go for the easy solution... I love it anyway!

THC

Telegráfico

Mais uma adenda para a colecção de posts telegráficos:
Fado, Futebol e Fátima?
Nááááááá
Flauta, Fagote e... Fado!!!
Viva a emigração, viva Portugal e viva ao ecletismo!
E já agora, parafraseando alguém com bastante bom senso:
Manuel (por favor) Alegre-nos!
Doei

quinta-feira, novembro 03, 2005

Blogs

Quando a minha mãe (vou repetir: A MINHA MÃE!) me comunica que vai criar um blog, tenho de acreditar que este em que escrevo está a ter mais efeitos e mais estranhos do que estava à espera quando o criei!
Way to go mum!!
Aguardo ansiosamente!
Beijinhos pra Portugal

quarta-feira, outubro 26, 2005

Ingredientes

O fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio.
...
...
e isso é bom ou mau???

terça-feira, outubro 25, 2005

7 anos

7 anos é muito tempo... é IMENSO tempo!
Não passam a correr, de modo algum, mas estes últimos 7, parece que passaram depressa!
Parece que tudo o que aprendemos foi aprendido depressa, agora que já o sabemos!
Parece, de uma forma estranha, que há 7 anos e um dia foi ontem, e que tudo se passou, como num sonho, rapidamente e como se fosse magia, durante uma noite de sono e sonhos bons! Como se de ontem para hoje tivesse aprendido todas estas coisas contigo e não pudesse sequer ter sido de outra forma!
Estes 7 anos sabem-me bem! Melhor do que qualquer coisa que possa definir ou tenha alguma vez provado! Sabem muito melhor do que a soma dos seus ingredientes...
Agora que penso nisso, sabem muito melhor do que os 84 meses que passaram, do que os 2557 dias, do que as 61368 horas, os 3682080 minutos ou os 220924800 segundos que passámos juntos, pelo menos como estamos agora, em que me tornei um bocadinho de ti e tu um bocadinho de mim!
7 anos é muito tempo, ou se calhar é apenas uma noite e amanhã, quando acordarmos, podemos começar a contar outra vez!

terça-feira, outubro 18, 2005

Tibetan peace garden

We Human beings are passing through a crucial period in our development. Conflict & mistrust have plagued the past century, which has brought immesurable human suffering & environmental destruction. It is in the interest of all of us on this planet that we make a joint effort to turn the next century into an era of peace & harmony.
May this PEACE GARDEN become a monument to the courage of the tibetan people & their commitment to peace. May it remain as a symbol to remind us that human survival depends on living in harmony & on always choosing the path of non-violence in resolving our differences.
The XIV Dalai Lama of Tibet.
13-May-1999

...

...

...

Well, it may not be the most inspired message ever, but it's a good, simple, honest, usefull urge for peace, love, understanding and tolerance!
Problem is, the beggining of our new century, insofar, has been everything but an auspicious one - to say the least! - in what concerns peace, love, understanding or tollerance!
Even worse is my guess (and I think it doesn't take a genious to guess this) that this message will be even more urgent in 10, 20, maybe 50 years - that is assuming that there will still be someone with good sense on this planet to whom the message may be directed at!!
And by the way... it got me wondering; why on earth was the peace garden built precisely next to the huge and somewhat oppressive Imperial WAR Museum!!?? Maybe that's the whole point... but still I wonder!

(notes from London - cheers)

terça-feira, outubro 11, 2005

...

...and sometimes it's just a big misunderstanding!
sorry!

Silence

Sometimes slience hurts more than the worst, ill-intentioned, wrong-doing or insult!
Sometimes silence stings like needles pushed deeper and deeper inside your guts!
Sometimes silence means despise, sometimes it means absence, but worst of all
Sometimes silence means (I guess) just cold and sheer indiference,
and that just makes you deeply deeply sad...
the kind of sadness which feels like you could die from!
Please... just speak!

terça-feira, outubro 04, 2005

Amizade e Comunicação

To P.M.
Amizade e comunicação têm bastante em comum. São fenómenos estranhos, misteriosos, difíceis de definir; parece não se saber muito bem como começam e onde deixam de funcionar, porque resultam ou não, como se estabelecem diferentes dinâmicas ao longo da sua existência e, sem dúvida, há muito de uma na outra - seja qual for a ordem dos factores que se escolha, mas principalmente parece-me ser indispensável uma boa dose de comunicação numa boa amizade, enquanto que, por outro lado, é mais agradável comunicar-se com alguém por quem se sente, pelo menos, alguma empatia!
Acho que é possível fazer um esforço, conscientemente, para criar, manter, melhorar e aprofundar tanto amizades como comunicações com outras pessoas, mas também acho que as mais gratificantes são aquelas que parece que simplesmente acontecem, sem mais nada, sem aviso, sem esforço, sem demasiadas expectativas, sem explicação aparente, enfim, sem problemas (não tenho a certeza de que isto exista, na verdade... pelo menos estas características todas ao mesmo tempo)!
Mas essas também são as mais difíceis de compreender, porque muitas vezes são quase ilógicas. Pessoalmente tenho experiência de pessoas com quem tanto a comunicação como a amizade que temos são absolutamente bizarras, e no entanto são as que mais prezo e pelas quais faria (e tenho feito) qualquer coisa para as manter, incluindo esforços para resolver quaisquer problemas que sinta que se lhes deparam!
Não tenho muitas amizades a sério e não sei explicar porquê. Há muita gente com quem comunico com uma facilidade incrível (talvez às vezes até com demasiada facilidade para a confiança que tenho com elas); depois um número um pouco mais pequeno de pessoas por quem posso pôr as mãos no fogo e que acho que fariam o mesmo por mim (mesmo assim aqui ainda está muita gente porque acho que sou um bocado crédulo); um círculo mais restrito de pessoas que me conhecem MUITO bem e que eu sei que estarão sempre lá para mim e vice-versa.
Talvez a estes últimos já possa chamar amigos, mas a verdade é que quando penso na palavra ocorrem-me sempre duas pessoas, bastante diferentes entre si e, sobretudo, com quem comunico de formas diametralmente opostas! Com uma comunico por palavras, por imagens, por pensamentos, por tudo e mais alguma coisa e às vezes até por nada; com a outra [que és tu, no caso de ficares com dúvidas] ainda não percebi se comunico ou não, nem como, mas a verdade é que a amizade continua sempre lá, estranha, forte, como um pano de fundo, uma camada subjacente, arcaica e primordial, uma energia... daí que tenha que pressupor que exista entre nós uma comunicação de qualquer tipo que eu não compreendo bem. É uma comunicação invisível, inaudível e impalpável. É etérea!
É talvez por isso que, chegado a este ponto da minha divagação e sem ter ponderado que isso pudesse acontecer, tenho de admitir que se calhar os dois sujeitos do meu texto não andem sempre a par, ao mesmo tempo e sob as mesmas formas; ou então há ainda mais formas de cada uma do que eu tinha suposto e são impossíveis sequer de catalogar, quanto mais de compreender, pelo menos para mim e para o meu pequeno intelecto!
O mais curioso de tudo, no entanto, é que este texto não é mais claro no fim do que o era no princípio, muito pelo contrário, e que não há ponto nenhum a provar, nem a defender, só a certeza da amizade... uma amizade estranha... uma comunicação estranha... mas que não trocava por nada!
Um grande abraço amigo, de longe, e já agora desculpa por já passar da hora, mas demorou-me mais tempo a atinar com os pensamentos e com os acentos num teclado alemão do que estava à espera... mas em Portugal ainda são 23:12 de dia 3!!!!!!!!!!!!!!

sábado, outubro 01, 2005

Renascentismo, Barroquismo, Modernismo, Especialismo. (!??!)

Para além de todos os outros, há um pequeno mal da nossa sociedade - dita contemporânea, moderna, desenvolvida, ocidental - que me atormenta e aflige um pouco.
Assim, como me é extraordinariamente difícil ter sequer pretensões a escrever algo relevante sobre, por exemplo: Conflitos Internacionais; Terrorismo; Pandemias; Calamidades Naturais; Questões Sociais; Problemas Políticos e eleições autárquicas, que não são bem a mesma coisa!; etc, etc, etc (ena, só assim fazendo uma enumeração, mesmo não exaustiva, é que uma pessoa se apercebe de quão mal vai o nosso Mundo), limito-me, portanto, a focar-me na terrível tendência, não tão actual quanto isso, para a hiper-especialização e "tecnicalização" deste nosso mundo competitivo.
Vivemos numa sociedade, rápida, desenvolvida, competitiva, feita de, para e por especialistas - sim, até no nosso cantinho chamado Portugal, para o efeito não faz diferença: se se tem um computador para ler este texto então também tem de se estar incluido. Cada um de nós sente, e é encorajado cada vez mais nesse sentido, que tem de ser o MELHOR (possível), seja lá no que for que cada um faça; temos de ser criativos, competitivos, produtivos e aspirar sempre a melhorar todos estes parâmetros da nossa actividade!
Quero já deixar claro que não tenho nada em concreto contra a competitividade e produtividade, nada em absoluto contra a criatividade, e que seguramente acho positivo que se procure melhorar, evoluir! O que me faz confusão é mais o processo através do qual é suposto serem atingidos estes resultados, é o "como", é o grau de excelência, levado ao paroxismo e à obsessão, necessário para dominar as máquinas com que trabalhamos - e as máquinas são: as propriamente ditas, mas também as instituições, as circunstâncias, as especificidades e idiossincracias de realidades cada vez mais complexas!
Eu tenho de saber tudo o que há para saber, dominar, estar à vontade, "baralhar e voltar a dar", os aspectos específicos da minha área de actividade, que por acaso são cada vez mais e que, felizmente para mim, até nem têm tanto a ver com produtividade ou competitividade quanto isso (mas isso é apenas uma feliz coincidência para mim e que não altera substancialmente o ponto que estou a demosntrar, em geral, uma vez que decidi ser músico e tenho de desenvolver mais a parte criativa). O problema é que, ou somos todos super-homens, ou quando finalmente soubermos o suficiente para sermos úteis à sociedade naquilo que decidimos fazer, tragicamente, já será demasiado tarde para aprender seja lá o que for sobre outra coisa qualquer!
Exagero? Talvez, mas a verdade é que a tendência vai cada vez mais no sentido de aparecerem cada vez mais técnicos hiper-competentes-especializadíssimos-maquinais-infalíveis e IGNORANTES, do que leigos-cultos-honestos-curiosos, enfim pessoas... Homens!
Mas o mais subversivo, na minha opinião, é que também há quem tente encapotar e amenizar esta tendência, proclamando que se deve aspirar é precisamente ao oposto. Não sei exactamente se se chama pós-modernismo ou não (sou suficientemente ignorante em epistemologia e Ciência Social para poder cometer destas gaffes), mas como é dos meus odiozinhos pessoais preferidos vou partir do princípio de que sim.
Não raras vezes se ouve falar de interdisciplinariedade, complementaridade dos saberes, de aprofundamento de conhecimentos em áreas distintas, como se fossem ideais a atingir, ou mesmo condições sine qua non para se ser produtivo, etc.
Mas a verdade é que nunca consegui deixar de sentir, ao ouvir representantes desta corrente, que talvez os próprios nem sequer acreditem muito bem no que apregoam! Parece que eles são os responáveis precisamente pelo contrário, pela especialização, pelo afunilamento, mas que depois, por um qualquer tipo de peso na consciência, por terem consciência dos malefícios do mundo complicado que criaram, aparentam encorajar que se lute contra essa visão redutora e que se seja "pós-moderno"!
Faz-se festinhas com uma mão e com a outra bate-se com o cinto! É que se alguém se aventura a sério neste "iluminismo" - chamemos-lhe assim - é relativamente fácil ficar-se proscrito, fora do circuito dos especialistas, e é-se logo acusado de se ser demasiado vago, disperso, pouco correcto tecnicamente, por parte dos professores-especialistas que, se calhar, noutra ocasião e contexto se afadigaram a incentivar precisamente esta pluridisciplinaridade!
Imagino que haja uma minoria destes resistentes, anacrónicos Homens do Renascimento, no limbo da excomungação desta nossa comunidade técnica (eu, por exemplo, conheço um e consigo conceber que haja mais... tal como as bruxas, ou os O.V.N.I.s). Depois há um grupo, não sei se minoritário ou não, daqueles que, não tendo a perseverança suficiente para resistir contra o tempo em que vivem, não têm outro remédio senão "irem-se especializando", enquanto mantêm, mais ou menos em segredo e esperando que ninguém repare nisso, uma certa admiração e uma pontinha de inveja salutar por essa estirpe cuja existência, às vezes, parece assemelhar-se à dos gambuzinos!
Pessoalmente não me considero nem super-homem, nem super-máquina. Posto perante o dilema de apostar mais em saber tudo sobre o meu ofício, e nada mais; ou em saber um pouco mais sobre tudo, para além do meu ofício; como diria o outro (não sei quem, mas gosto de usar esta expressão): "Entre les deux, mon coeur balance!".
Não consigo evitar sentir a angústia da ignorância quando finalmente, à custa de muito porfiar e obsecar com a minha música, começo a ter lampejos de compreender, por exemplo, a essência do estilo da música francesa por oposição à alemã e como exprimi-las, ou ainda mais especificamente, o significado daquele acorde obtuso e dissonante naquela peça de Brahms (podia ser ainda pior!). Da mesma forma que quando me dou ao trabalho de saber algo mais sobre o mundo que me rodeia, o que posso fazer por ele, por mim e pela nossa relação um com o outro, não me consigo livrar do receio da incapacidade técnica para exprimir seja lá o que for através de sons!
Para mim acho que resulta ir passando o peso do dilema de um pé para o outro... balançando, mas não faço ideia se funciona sempre e para qualquer um, ou se é uma coisa pessoal. É como se dentro de mim coexistissem um Renascimento e um Pós-modernismo que vou tentando conciliar. Se calhar é isso mesmo que quer(o) dizer - é o BARROQUISMO!
É certo que o Renascimento e o Iluminismo são anciães de 500 anos de idade, que o Barroco tem 300 e que não me passa pela cabeça que 500 anos depois ainda devessemos andar a (re-)descobrir o que esses homens notáveis conseguiram inventar. Acredito no progresso (pelo menos em algum dele), e acho que não viveria melhor se tivesse nascido em 1481 ou 1681, mas não imagino que possa aparecer um Leonardo da Vinci ou um Johann Sebastian Bach (AH, Bach!) no século XXI - daqui a alguns séculos a História se encarregará de me contradizer ou não - e esta nostalgia ninguém ma pode tirar.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Perder a virgindade!

Com este post estou a perder a virgindade na blogosfera! Exactamente, "as I speak", em directo e ao vivo, no preciso momento em que inauguro o Barroquista!
Porquê Barroquista?
Bem, em primeiro lugar porque não pude criar o alta, estúpida e irritantemente egoísta/narcisista blogue "eu eu eu"!
Porquê? porque acho que sou um pouco egoísta/narcisista enquanto mantenho a esperança de não o ser nem estúpida nem irritantemente, mas mais vale não contrariar (demasiado) aquilo que se é, desde que isso não chateie demasiado os outros!
Em segundo lugar: porque acho que esta palavra que espero ter inventado diz algo sobre mim. Sobre o meu "je ne sais quoi" de Barroco, mas reinventado, "barroquisticamente"!!
Acho que já chega de explicações: para quem não me conhece é suficiente e quem me conhece pode ler nas entrelinhas o que prefiro não escrever!
Conteúdo, conteúdo, apenas os parabéns atrasados ao meu primão "brazuca"!!